
Olá pessoal!
Durante uma conversa na mesa de um bar, (mais especificamente no Mulligan, os leitores de PoA devem saber onde fica), discutindo algo sobre ressaca, veio a questão dos medicamentos para dor de cabeça. Sim, como curar a dor de cabeça após ter ingerido alguns “golinhos” extras de bebida alcoólica. Muitas pessoas costumam tomar, Neosaldina®, dipirona sódica, Lisador® e o velho e “bom” paracetamol. Digo, velho e “bom”, pois na realidade muitas pessoas não sabem que tomar paracetamol após a ingestão de bebida alcoólica pode fazer um estrago gigante no fígado.
Na verdade, medicamentos NUNCA podem ser ingeridos concomitantemente com bebidas alcoólicas. Isto porque o álcool etílico age como um indutor enzimático sendo capaz de promover a ativação das enzimas hepáticas, que por sua vez agem na biotransformação (metabolismo) de muitos medicamentos. Dessa forma, ocorre a redução da meia-vida dos fármacos no organismo. Para pacientes sob tratamento a base de antibióticos, a ingestão de álcool é um grande problema. A redução da meia-vida de um antibiótico diminui a eficácia contra os microorganismos patogênicos, tornando-os mais resistentes.
Bom, voltando para o paracetamol...
Como efeitos adversos, o paracetamol, apresenta agudas e graves necroses no fígado. Mas como isso acontece?
Quando metabolizado, por uma enzima chamada CYP450, este fármaco produz a iminoquinona uma molécula capaz de sofrer reações de conjugação com a glutationa. A glutationa é um tripeptídeo sulfidrílico, que em geral, promove reações de bioinativação de moléculas presentes no fígado. A questão é que a interação da iminoquinona com a glutationa reduz o nível desta ultima molécula, causando os efeitos adversos. Com a diminuição de glutationa, ocorre reações de peroxidação lipídica (se quiser saber mais sobre o assunto indico o seguinte blog: http://bioradicaisbio.blogspot.com/2009/07/peroxidacao-lipidica.html) nos hepatócitos (células do fígado) e depois a alteração da homeostase de íons Ca++, causando a toxicidade hepática.
Ok! Até ai tudo bem, certo? E agora? Onde entra a bebida alcoólica, no caso do paracetamol?
Como eu escrevi antes, o álcool age como indutor enzimático. Portanto, ele ativa a enzima CYP450, que age no metabolismo do paracetamol produzindo mais iminoquinona. Desta forma, potencializa a formação de complexos imiquinona-glutationa, retirando a glutationa do fígado, aumentando os efeitos adversos.
Simples assim! Nada de ingestão de medicamentos com álcool!
Barreiro, E. J.; Fraga, C.A.M. Química Medicinal - As bases moleculares da ação dos fármacos. 2 ed. Porto Alegre: Artmed, 2008.
Katzung, B. G. Farmacologia Básica e Clinica. 6 a ed. Guanabara Koogan, 1995.